quinta-feira, 10 de junho de 2010

UMA VERDADEIRA RAINHA DA NOITE



“A Vingança do inferno arde em meu coração;
Morte e desespero queimam em torno de mim!
Se Sarastro não sentir as dores da morte por suas mãos, então nunca mais você será minha filha.

Renegada para sempre,
Abandonada para sempre,
Deixados serão para sempre
Todos os nossos vínculos naturais se Sarastro não for morto por você!
Ouvi, deuses da vingança, ouvi o juramento de uma mãe!”

Não é preciso pensar muito para perceber a intensidade dos versos de Emanuel Schikaneder, acima transcritos, traduzidos do alemão para o português. Contudo, se o texto não deixa dúvida quanto a sua dramaticidade, a música, composta por Mozart, trata de encerrar qualquer questão a esse respeito. A crucialidade, a contundência do momento, deixam o ouvinte e o espectador paralisados. Afinal, a encomenda de um parricídio nunca foi um tema tranqüilo na história da humanidade. Estamos falando da ária Der Hölle Rache, de A Flauta Mágica, de Mozart.
Se a ária já possui tal dramaticidade, o que dizer se uma fantástica interprete somar a ela uma visão intensa, terrível e irretocável? Diana Damrau, soprano coloratura alemã, sabe fazer isso.
Der Hölle Rache está inserida na coletânea Arie di Bravura, lançada pela EMI Records, em 2.007, na qual Damrau mostra toda a sua técnica em repertório virtuosístico. Ela já estivera envolvida na montagem da Flauta Mágica, em de 2.003, versão que saiu em DVD pela Opus Arte e pela MoviePlay do Brasil, em 2.009.
A interpretação de Damrau é intensa. O magnetismo e o feitiço fazem parte de sua interpretação. O resultado é fantástico. O volume de sua voz, a afinação e o vigor com que ela atinge as notas extremas do registro são notáveis. Não há concessão, o “Pathos” que envolve o pedido de parricídio feito à filha é aterrorizante. Tem-se a sensação de que a ficção abarcou a realidade e se transformou em um terrível pesadelo.
A versão em CD, realizada em estúdio, realça os predicados vocais de Diana Damrau e a sua técnica espetacular. O acompanhamento da cantora fica a cargo de “Le Cercle de l’Harmonie”, sob a direção de Jérémie Rhorer. Em nota explicativa, o nome do grupo faz referência a uma orquestra fundada pelo Chevalier de Saint-George que interpretava o repertório do final do Século XVIII. A orquestra parece responder integralmente às pretensões de Damrau. O resultado é conciso e mágico.
A versão em DVD de “A Flauta Mágica”, além dos aspectos virtuosísticos, explica por que motivos Damrau tem sido uma das cantoras mais requisitadas na Europa e nos Estados Unidos: sua capacidade de intensificar o drama, utilizando-se de rigorosa técnica vocal e excelente presença cênica fazem dela uma estrela única no universo do canto lírico. Filmada na Ópera Real do Convent Garden, em 27 de janeiro de 2.003 com a Orquestra e Coro do mesmo teatro, a regência está a cargo de Sir Colin Davis.
Há de se desejar que Diana Damrau não demore muito para aportar por aqui.